Novas mídias para velhos comportamentos

Um dos grandes encantos ao se estudar o comportamento dos consumidores é poder mensurar, acompanhar e até mesmo prever algumas vezes as mudanças e evoluções destes comportamentos. O que muitas vezes ocorre diante de novos estímulos ou alterações de ambiente. Porém, existe algo ainda mais interessante a se observar. É o fato de que alguns comportamentos não são abandonados, mesmo ao longo de muito tempo, diante de fortes e frequentes estímulos que possam torná-los obsoletos ou sem sentido. Isso porque alguns comportamentos são capazes de se adaptar e evoluir às mudanças do ambiente para assegurar a continuidade e longevidade de velhos hábitos. Mesmo frente à novas tecnologias.

Evoluindo assim, o comportamento do consumidor permitiu uma fácil substituição de algumas mídias por outras em nome da perpetuação de idolatrados e aclamados velhos hábitos.

Talvez, hoje não nos dirigimos à uma agência de correio para postar uma carta escrita na noite do dia anterior. Porém, isso não significa que tenhamos abandonado o velho hábito de escrever para outras pessoas. Continuamos nos comportando como há séculos. Apenas empregando uma ferramenta de e-mail, como o Gmail, ao invés das obsoletas cartas. Sem perceber, temos hoje o comportamento diário de enviar inúmeros e-mails. O que não substituiu o ato de escrevermos para alguém para registrar nossas histórias e comunicar as principais notícias. Mas agora o fazemos com muito mais frequência e intensidade.

Assim como não deixamos de ouvir música. Mas substituímos as obsoletas fitas K7 por muitas outras mídias até chegarmos ao sedutor Spotify. Da mesma forma, conhecemos o grande caso de sucesso, inovação e revolução promovido pelo Netflix. Que nos oferece de forma muito mais conveniente a condição de assistirmos filmes nas noites de sábado, por meio de sua plataforma online, como antes fazíamos utilizando os videotapes em VHS.

A Televisão com sua programação ao vivo, substituída pelo Youtube. A leitura de classificados e buscas de emprego, podem ter migrado dos cadernos especializados dos antigos jornais para as páginas do Linkedin, tal qual a busca por significados do dicionário migrou para a consulta à Wikipédia. O Álbum de fotografias não é mais físico e as fotos de nossas viagens não são mais reveladas. Mas permanecem catalogadas e expostas em nosso perfil do Facebook para que nossos amigos possam compartilhar de nossas memórias e vaidades.

Atualmente dispomos de muito mais espaço de armazenamento, segurança e acessibilidade à toda infraestrutura de “nuvem” para salvarmos, armazenarmos e preservarmos nossos arquivos do que os nostálgicos disquetes. Este que para a geração atual teve seu significado restrito à simbologia infundada para representar o botão de salvar em programas e aplicações.

Até mesmo o comportamento de interação mais rápida e direta como entrar em contato para conversar, alertar, perguntar, compartilhar algo especial ou corriqueiro com alguém, antes realizado por telefone, se mantém vivo e presente em nosso cotidiano. Porém, hoje; por meio de aplicativos de mensagens instantâneas como o WhatsApp.

Em resumo, o mundo no qual vivemos está em constante metamorfose. As tecnologias e mídias ao nosso redor se atualizam na velocidade de um download. Mas lutamos insistentemente para assegurar nossos velhos hábitos vivos em comportamentos perpétuos.

Mesmo o Netflix sendo capaz de tornar os dispositivos em que o utilizamos, não deixamos de consumir os mesmos produtos de antes nos mesmos rituais, seja sozinho, com amigos e/ou familiares. Telefone fixo, celular ou mesmo no browser do computador, mantemos o mesmo comportamento de interação social. Não deixamos de nos corresponder ou buscar por informações. E provavelmente não mudaremos isto por um longo tempo.

Portanto, as argumentações de que a tecnologia nos tornou mais isolados (Smartphones), dependentes (Redes sociais), violentos (no caso dos jogos de vídeo game) e com maior necessidade de nos mantermos informados (Internet). Se apresentam, de fato, infundados diante desta reflexão.

Deixo uma última imagem para reflexão sobre a predominância e prevalência de nossos comportamentos diante das tecnologias e mídias de diferentes tempos. Pois, assim como não me recordo da humanidade ter realizado alguma nova guerra mundial depois da invenção do vídeo game. A imagem abaixo ilustra o conceito central deste curioso artigo. O de que podemos substituir as mídias e adorar novas tecnologias enquanto o mundo ao nosso redor se reconfigura. Mas buscaremos perpetuar nossos comportamentos mais naturais e/ou que depositamos maior apego e preferência.

Escrito por Alexandre Conte