Mudança, Caos, Adaptação e Inovação

Quatro conceitos que ao primeiro olhar podem parecer muito similares. Talvez, já em um segundo olhar, um pouco controversos. Mas, certamente em um terceiro, podem ser lidos com certa interligação ou até mesmo intimidade ou interdependência. Mas a provocação que trago aqui é de interpretá-los como elementos presentes em um mesmo contínuo. Sem uma necessária interdependência, mas com fortes influências. Proponho uma reflexão além do senso comum. Um olhar sobre o que estes quatro conceitos, Mudança, Caos, Adaptação e Inovação, possuem em comum. O ambiente no qual surgem, estão inseridos e/ou venham a reconfigurar.

Para embasar e, por que não, enobrecer este artigo, trarei à mesa deste debate algumas personalidades que em muito contribuíram para a nossa visão de mundo. O que permitirá uma ilustração mais envolvente sobre as ameaças e oportunidades trazidas pela mudança do Status Quo e a instintiva luta por sobrevivência de todo sistema vivo, seja ele um ser, um profissional, uma organização ou até mesmo um sistema complexo e interativo como um mercado.

A instalação Caos, de Eduardo Srur, exposta em 2018, no pátio do Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP em São Paulo.

A Mudança surge para ressignificar o estado anterior que ao ficar para trás, oferece um novo universo de possibilidades. Porém, esta reconfiguração gera maior ou igual grau de desordem do que a organização necessária para executá-la. E em meio a esta desorganização toda, muitos se perdem e na insistência de regressar ao estado anterior apenas contribuem para o aumento do estado caótico de desorganização. Porém, neste ambiente desprovido de organização sobrevive e evolui o sistema que for capaz de desenvolver habilidades de adaptação para utilizar o novo meio a seu favor. E ao se adaptar ao novo meio conturbado, o sistema sobrevivente é capaz de prevalecer nesta nova ordem. Uma vez que compreendeu as novas mecânicas do universo que está inserido, ele pode ainda aprender a influenciar o seu funcionamento e com isso, ser ele então a peça ignitora de uma nova mudança. O que os seus pares chamariam de rebeldia aos padrões recentemente estabelecidos ou ainda de puro provocador de desorganização. Desorganização esta que permitirá uma nova ressignificação do meio, influenciado pela sua nova mutação, o seu novo jeito de agir. O sistema antes, mero sobrevivente, passa a ser o agende do caos que promove uma nova mudança ao ambiente por meio de sua Inovação. Sendo a inovação, sua nova criação, passa ela a ser novo epicentro de um novo padrão, um novo normal.

 

MUDANÇA

Conforme a definição clássica de dicionário, nada mais é do que a alteração ou modificação do estado normal. Mas o que trago aqui, não é uma discussão sobre o que é a mudança e sim o potencial caótico de suas consequências. A mudança ocorre para romper a continuidade do que imperava antes dela. Trazendo uma ruptura no que era certo, imutável e embalado pela inércia do tempo, designado como uma constante perpétua. Sendo assim, qualquer mudança, por mais bem-vinda e desejada que seja, é sempre uma representação de trauma. Pois quebra e põe fim ao estado anterior para que um novo possa dele, evoluir. Seja a mudança planejada ou tomada de surpresa. Ela imbui a todos os envolvidos uma consequência de que as coisas não serão mais como eram antes. Seja isso bom ou ruim.


Embora em muitos momentos tenhamos plena convicção de que algo será eterno e imutável. O prêmio Nobel de 1932, Werner Heisenberg, autor do Princípio da Incerteza, nos garante com os resultados de seus trabalhos sobre a física e o estado quântico o que Sócrates já nos ensinada deste o período clássico da Grécia antiga do século IV antes de Cristo em sua célebre e memorável frase “Só sei, que nada sei.” Isto porque, o Princípio da Incerteza de Heisenberg prega que quanto menor for a incerteza sobre a mensuração da posição de uma partícula, maior será a incerteza sobre o seu momento linear e vice-versa. Sem entrar no âmbito mais profundo ou “quântico” da Física teórica ou da filosofia, podemos simplesmente assumir diante destes dois professores da humanidade, que nossas certezas não passam de mera indicação de nossa ignorância. De tal forma que acreditar ou tentar justificar que o Status Quo não sofrerá alterações, não passa de pura ilusão.

Mas, se o estado anterior, ou mesmo o atual, assim como o futuro, não podem ser considerados como constantes. Porque devemos acreditar ou seguir a Mudança como uma entidade que nos guia para novos rumos contra ou à favor de nossa vontade? Por algum tempo, todos nós buscamos respostas e alternativas para isso. Mas a questão é; Não importa. A mudança é inevitável. Sendo ela inevitável, então o novo estado que surge também não será capaz de se perpetuar e em uma questão de tempo sofrerá uma nova mudança.

 

CAOS

Outro conceito que deriva de eventos pontuais e isolados, porém com grande potencial de encadeamento é o Caos. Na Teoria do Caos é descrito como consequência desdobradas de pequenas influências tal como; a influência de pequenas variações ou mudanças nas condições em determinado ponto de um sistema dinâmico pode exercer consequências de proporções inimagináveis. É de onde surge aquele conceito que certamente você já ouviu sobre o furacão formado sobre o Texas derivado de um bater de assas de uma borboleta sobre o Himalaia.

Isso se dá ao fato de que, conforme descrito por Issac Newton em sua 2ª lei da Termodinâmica; “Todo trabalho de organização implica na geração de maior ou ao menos igual grau de desorganização para o universo”. Ou seja, quanto maior for o esforço para se organizar a desordem gerada pela mudança, maior será o grau de desordem gerado. O que tende a acelerar o processo de surgimento de novas mudanças. Acelerado a tal ponto que toda e qualquer constante será eliminada da equação, restando apenas a mudança como elemento presente na ausência de ordem.

Este Caos pode ser identificado pela descrição de Mundo VUCA que vivemos hoje. Um conceito concebido na década de 1990, na época de pós-guerra fria, sendo utilizado para explicar a complexidade e incertezas da situação geopolítica mundial. Um complexo, intenso e presente misto de Volatilidade [Volatillity], Incerteza [Uncertainty], Complexidade [Complexity] e Ambiguidade [Ambiguity]. Um mundo que traz consigo grandes desafios devido às rápidas mudanças e grandes incertezas.

Albert Einstein, que em muito contribuiu de forma fundamental para diversas áreas da Física que conhecemos hoje, também foi um dos principais influenciadores para a teoria do caos quântico que praticamente nasce de sua publicação sobre a Relatividade Geral em 1917. O que ironicamente, provocou uma grande mudança para o mundo. E de mudança em mudança o mundo se transforma e reconfigura seu estado anterior. O que torna a sobrevivência em um meio mutante e instável assim, algo árduo e valioso.

 

ADAPTAÇÃO

Para sobreviver neste constante e caótico estado de mudança, a capacidade e habilidade de adaptação é o elemento chave que permite que uma mesma geração possa transitar entre um estado e outro. Isso porque, os indivíduos que não o conseguirem fazer, estarão fadados a padecer junto com o estado anterior à mudança seguinte. Porém, sendo capaz de adaptar-se, o indivíduo ou “sistema vivo” poderá desfrutar de um entendimento mais amplo do seu universo. Uma vez que pode conhecer e participar de dois ou até mesmo mais estados diferentes do seu ambiente.

Como muito atribuído à Charles Darwin, o naturalista e biólogo que transformou, ou melhor, mudou a visão de mundo com seu trabalho sobre a Evolução das Espécies, o conceito de que não é o mais forte que sobrevive e sim o mais adaptável. Muito deve-se à Leon Megginson, quem de fato citou, de modo não literal e sim interpretativo, o conceito central da obra de Darwin com a publicação da frase;

“Não é a mais inteligente das espécies que sobrevive. Não é o mais forte que sobrevive. Mas a espécie que sobrevive é aquela que tem melhores condições de se adaptar ao ambiente em mudança, em que se encontra.” – Leon Megginson.

Ou seja; a adaptação é a saída e a passagem para sobreviver ao caos e transitar saudavelmente entre um mundo e outro existentes de cada lado da mudança. Podendo assim, deixar o estado anterior para traz e viver prosperamente no estado vigente pós-mudança, sem ser desfacelado pela desordem do caos.

 

INOVAÇÃO

A inovação seria para nosso texto a transcendência final da sobrevivência do ser ou sistema vivo em conquista do controle sobre o caos da mudança. É quando pode-se operar as mudanças do ambiente caótico e conduzir o estado atual para novos rumos. É quando se assume o leme da jornada e faz com que o ambiente precise se adaptar para sobreviver, no novo estado gerado pela mudança causada por cada inovação. Pois inovar é a competência de criar formas e caminhos diferentes para a replicação de algo em um novo estado. Um estado diferente e superior ao original. É aprimorar melhorias ao que antes era ordinário e comum.

Como Sun Tzu maestralmente declara; “Somente o mais forte e corajoso e capaz de atacar à si próprio”.

Traduzindo a filosofia e a estratégia de Sun Tzu em sua clássica obra A Arte da Guerra, para o mundo dos negócios e para a gestão de carreira. Podemos considerar que atacar a si próprio é ser a própria mudança capaz de tornar o seu próprio produto, negócio ou até mesmo a si mesmo obsoleto diante da mudança. Enquanto os inimigos, ou concorrentes, estão trabalhando para copiá-lo, crie uma nova mudança, force o mercado ou cenário a evoluir. E com isso, será capaz de eliminar os que não tiverem a hábil capacidade de adaptação.

Inovação é a possibilidade de reordenar o Caos na condução de um novo caminho. É redirecionar as mudanças à seu favor. É o domínio do ser sobre o ambiente mutante, fazendo-o mudar conforme sua estratégia. Desta forma, é possível, não somente sobreviver às constantes mudanças do estado de caos, mas também, como de domá-lo e conduzi-lo por meio da prática da Inovação. Pois ao inovar, transformamos as mecânicas do ambiente, forçamos uma nova mudança e reconfiguramos novamente o status quo.

Escrito por Alexandre Conte