Maturidade tecnológica e digital será fundamental para superar a crise no Brasil

Artigo publicado na Edição 55 da Revista Alumni – Madri. Disponível em: https://www.esic.edu/alumni/revistas

Buscando desmistificar o conceito de transformação digital como uma jornada e mensurando como está sendo aplicada nas empresas brasileiras de diferentes indústrias, este artigo propõe uma pequena contribuição para a melhor compreensão sobre esta jornada nas organizações. Em tempos de pandemia e isolamento social, este é um conceito que ganhou ainda mais força, velocidade e popularidade. Mas como, de fato, estão hoje as empresas brasileiras em relação à esta jornada? Ao observar o index de maturidade tecnológica gerado através de um levantamento com mais de 800 gestores de diferentes departamentos de empresas brasileiras de industrias variadas, se torna possível obter uma fotografia que ilustra quais indústrias e departamentos estão na liderança desta jornada e os que ainda estão se movendo mais lentamente. Com uma média nacional de 0,52, o estudo encontra o setor educacional como o de maior maturidade tecnológica. Enquanto a indústria varejista encontra-se na lanterna desta jornada. O que pode determinar maior ou menor capacidade de adaptação, competitividade e continuidade no mercado.

Muito se ouve, se fala e até mesmo se faz em nome da tão aclamada “Transformação Digital”. Que já é realidade em muitas empresas, nas quais suas rotinas de trabalho já foram influenciadas por novas tecnologias, que otimizam tarefas e facilitam o trabalho de muitos profissionais que estão se tornando mais eficientes ao elevarem o volume e a qualidade de suas entregas. Ela impacta nossas vidas como gestores, como profissionais, como consumidores e também, como cidadãos de diferentes maneiras. Pois ocorre em todas as esferas da sociedade. Embora esta realidade venha se expandindo rapidamente, uma verdade inconveniente é que ainda existem muitos profissionais e empresas que não estão respirando estes novos ares.

Mas afinal, o que é e como se caracteriza a Transformação Digital?

A Transformação Digital ou simplesmente TD, não se limita a uma tecnologia ou conjunto de ferramentas. Trata-se de um processo contínuo. Ou melhor, uma jornada. Durante a qual, hábitos, rotinas e até mesmo a cultura de uma empresa ou sociedade são transformadas para que o emprego de novas tecnologias possa proporcionar uma mudança de ambiente, onde TECNOLOGIA, COMUNICAÇÃO e INOVAÇÃO desempenham um papel chave na transformação de estratégias, estruturas, processos, e culturas de uma empresa, mercado e até mesmo de uma sociedade.

Embora seja um movimento relativamente novo. Esta jornada já está sendo trilhada por muitos há um bom tempo. Porém, diante da grande pandemia de COVID-19 vivida em 2020 está este movimento se tornou muito mais intenso e veloz. Fazendo com quem ainda não tivesse adotado práticas e ferramentas tecnológicas, as empregassem em caráter de urgência. Quem já as tinha adotado, intensificou ainda mais suas aplicações. E o mundo, em poucas semanas, se tornou ainda mais digital, conectado e automatizado.

Mas a grande questão já existente e ainda mais sensibilizada nestes tempos de isolamento social e digitalização forçada, é sobre o quanto as empresas estão preparadas para atuar, sobreviver, competir e prevalecer neste cenário em ebulição que torna as tecnologias e certezas de ontem obsoletas com uma velocidade avassaladora.

Neste contexto, os gestores dos menores e mais simples negócios aos grandes gestores de multinacionais devem estar se perguntando; como saber se seu time, sua empresa e negócio estão preparados para trilhar esta jornada e se beneficiar de seus resultados, sem ficar para trás na competitiva luta por sua fatia de mercado.

Pensando nisso, os gestores devem buscar artifícios e métodos de medir a capacidade das suas empresas e times em adotar novas tecnologias, de assumir novas funcionalidades e proporcionar novas conveniências e atributos aos seus clientes, de automatizar processos e principalmente mensurar sua capacidade de tornar o negócio mais eficiente e rentável de modo compatível com as mudanças tecnológicas e comportamentais do mercado.

Index de Maturidade Tecnológica

Conforme apresentado no relatório de um levantamento realizado pela TOTVS, empresa de softwares de gestão e a maior empresa de tecnologia do Brasil, por meio de um instrumento de coleta digital ainda no primeiro semestre de 2019 e se mantém no ar, em seu site, coletando dados e atualizando um Index de maturidade tecnológica. Auxiliando gestores a medirem o nível de adoção e preparação digital de suas empresas, inclusive com avaliações departamentais e com um comparativo direto à média de mercado por setor de atuação e por departamentos. Instrumento este disponível no site da companhia.

O estudo que teve um primeiro levantamento realizado por telefone com mais de 800 gestores de empresas de diferentes departamentos e segmentos de mercado com faturamento acima de 5 milhões de reais ao ano. Hoje já possui uma base de mensurações realizadas pela Internet que supera o número de 1000 empresas avaliadas e oferece uma amostragem significativa para uma leitura de como estão preparadas hoje as empresas brasileiras para trilhar a jornada da Transformação Digital.

Neste Index de Maturidade Tecnológica, que avalia a adoção de diferentes sistemas e tecnologias, engajamento dos colaboradores, automação de processos e até mesmo os planos de digitalização das empresas, em uma escala de 0 à 1, obtém-se uma média nacional de 0,52. O que significa que na média brasileira, as empresas já possuem algumas soluções básicas implantadas, mas ainda precisam desenvolver sua maturidade, trabalhando novas soluções tecnológicas, conscientizando e capacitando ainda mais seus colaboradores. As empresas apresentam interesse e atenção aos planos para a Transformação Digital, mas ainda é preciso priorizar algumas iniciativas para tirar os planos do papel e levá-los ao cotidiano da organização. Porém, já demonstra que existe uma conduta de gestão que já posiciona em média, as empresas brasileiras com uma maturidade mediana para encarar os novos desafios configurados pela Transformação Digital.

Em um comparativo direto entre os principais setores do mercado, observa-se que o Varejo é um dos segmentos que estão mais atrasados, com um score de 0,42, frente ao segmento Educacional que figura como um dos mais maduros do index, com 0,61. Enquanto os segmentos de Serviços, Construção, Manufatura e Logística seguem com 0,48, 0,49, 0,50 e 0,56 respectivamente. Quando olhamos para a maturidade dos departamentos, confirmamos o que seria intuitivo pensar. Que a área de TI seria a mais bem preparada, por ser de sua natureza lidar com profissionais mais preparados e com a busca constante por novas tecnologias. Sendo assim, a TI ficou com um score de 0,55 diante de outros departamentos, tais como; Financeiro (0,29), Recursos Humanos (0,39), Comercial (0,39) e Marketing (0,40).

O estudo revela que atualmente apenas pouco mais de 30% das indústrias brasileiras utilizam soluções complementares ao seu ERP, como ferramentas de BI, CRM, GED e BPM. Enquanto apenas 20% delas já trabalham com integração entre seus sistemas de e-commerce e o ERP, o que representa um gargalo preocupante. Pois se considerarmos a tendência de digitalização acelerada destas transações devido ao aumento de consumo online, isto pode gerar quebra nas vendas, devido indisponibilidade de produtos assim como descontrole financeiro, além de retrabalhos operacionais.

“As empresas apresentam interesse e atenção aos planos para a Transformação Digital.”

É preciso estar preparado para a Jornada de Transformação Digital

Agora o que é imprescindível e não pode passar despercebido pelos gestores que triunfarão nesta nova era, é estar atento ao que acontece fora da empresa com a mesma atenção do que acontece dentro. Pois isto permitirá questionar frequentemente, o que pode ou deve mudar no modelo de negócio da companhia, se os perfis de clientes continuam os mesmos, se os motivos pelos quais seus produtos e/ou serviços são consumidos estão ou não sofrendo alterações, como manter um grau de diferenciação em relação aos concorrentes diretos e principalmente: qual o maior valor percebido por seus clientes e sociedade em geral.

Isso permitirá que a empresa possa evoluir com mais agilidade e segurança ao longo da jornada de transformação digital, amadurecendo e aproveitando os benefícios de cada uma de suas etapas. Sendo a primeira etapa a adoção de novas tecnologias. A segunda, integrar a tecnologia como parte do negócio. A terceira, considerar a tecnologia como parte da estratégia. Na quarta, convergir sua infraestrutura para otimizar sua operação de forma reestruturada. E por fim, atingir a quinta etapa, a de inovação constante, que representa um nível de maturidade digital tão elevado que proporciona uma cultura inovadora em todos os níveis da empresa, habilitando-a a reinventar-se constantemente. O que pode permitir uma capacidade de adaptação muito mais dinâmica, assim como pode conceber um poder de influência sobre o seu mercado de atuação a ponto de permitir que conceitos, comportamentos e culturas possam ser reconfiguradas. Assim como já vimos nos grandes casos de inovação disruptivas protagonizados por marcas que reinventaram a maneira como assistimos a filmes, buscamos informações, alugamos um quarto, nos locomovemos e até mesmo pedimos comida.

Escrito por Alexandre Conte.