O que aprender com as marcas mais inovadoras do Brasil e do Mundo?

O caos mundial gerado pela pandemia, trouxe reflexões sobre a forma como as pessoas consomem, trabalham, estudam, fazem negócios e como se relacionam entre si. Mesmo diante das adversidades e grandes desafios enfrentados por todos, algumas empresas de determinados setores estão prosperando e muito, em plena crise. Enquanto outros setores devem prosperar fortemente com as mudanças de mindset e de comportamento dos consumidores a partir das experiências vividas e experimentadas na pandemia.

Nesse cenário, inovação corporativa não é somente uma questão de posicionamento de marca ou atração de talentos, mas sim de sustentabilidade futura e continuidade do negócio. Significa ter condições de desenvolver uma organização capaz de enxergar diferentes horizontes no presente imediato, assim como no futuro. A consultoria McKinsey classifica esta visão de futuro em, concebidos e publicados originalmente no livro A alquimia do crescimento (Baghai, Coley, et al. 2000);

Fonte:  The Alchemy of Growth (Baghai, Coley, et al. 2000) | Criação: Alexandre Conte

Horizonte 1: inovação capaz de aperfeiçoar a eficiência do core business atual. Aqui falamos de inovação incremental que melhora a eficiência operacional e maximiza a entrega de valor já existente.

Os investimentos realizados neste horizonte em geral dão retorno no mesmo ano (melhorias em processos e produtos existentes). As métricas chaves no horizonte 1 em geral são receita, market-share, margem de lucro, entre outras. 

Horizonte 2inovação que cria novos negócios internos para, ao longo do tempo, se tornarem novas unidades de negócio. Eles têm potencial de mudar a fonte principal de receita da empresa, estendendo as competências atuais para mercados adjacentes.

Neste horizonte o objetivo é utilizar o que você já tem e estender seu produto ou serviço para obter novas fontes de receita. 

Horizonte 3: ideias e oportunidades nascentes que podem se tornar engrenagens de crescimento futuras. Elas podem mudar a natureza e as regras de uma indústria, carregando o potencial de serem game-changers — e a incerteza que vem com a disrupção.

Este horizonte contém hipóteses a serem validadas em busca de market-fit de novos produtos. Não existe aqui um resultado esperado, como existe no H1 ou mesmo no H2. Aqui a empresa precisa de visionários com espírito empreendedor e apaixonados por inovação.

Os investimentos feitos neste horizonte são suficientes para viabilizar os experimentos das ideias.  Uma vez validadas as hipóteses com experimentos, pode-se optar por levar o novo produto para o horizonte 2, ou simplesmente “engavetar” a ideia.

Com o horizonte de inovação definido, a decisão seguinte se dá em relação se a inovação virá de dentro da empresa ou de fora. É nesta etapa que surgem os programas de incentivos à inovação. Na primeira opção, a empresa estimula seu público interno, seus colaboradores e stakeholders mais próximos. Já na segunda, a empresa busca pela inovação nas suas conexões com o chamado ecossistema de inovação no qual está inserida ou possui relações, obtendo respostas de startups, mentores, hubs de inovação, profissionais e consultores da área, fornecedores, clientes e até mesmo outras empresas. Este é o famoso modelo de Open Innovation.

Toda inovação corporativa parte de um objetivo

E estes objetivos tendem a converterem para um ou mais dos 6 domínios principais que podem representar benefícios para a organização, encaixados em 2 eixos (interno/externo e longo prazo/curto prazo):

  • Adoção: Introdução de um produto ou serviço oferecido pela empresa;
  • Promoção: A empresa ganha visibilidade ou determinada reputação por conta da inovação gerada e/ou por sua atuação no ecossistema de inovação;
  • Vendas: Aumento nos resultados de marketing e vendas que permitam a geração de um volume maior de leads e/ou contratos fechados com clientes atuais e/ou novos;
  • Novos Negócios: Abertura de novas unidades de negócios, aumento de portifólio e/ou de novos mercados de atuação. Podendo ainda estabelecer e desenvolver novas parcerias ou oportunidades estratégicas;
  • Pesquisa e Desenvolvimento (P&D): Desenvolvimento de uma nova tecnologia ou componentes de inovação adjacentes ou complementares já existentes;
  • Educação: Geração de conhecimento e aprendizado para os colaboradores, fornecedores e parceiros da empresa. Ou ainda que permita a catequização de clientes.

Enquanto Educação e P&D são benefícios internos e de longo prazo, Promoção e Vendas são benefícios externos e de curto prazo. Adoção e Novos Negócios podem representar cada uma das quatro características, dependendo da natureza da inovação. Observe no gráfico abaixo a avaliação de benefícios avaliados sob uma escala de 5 pontos (onde 0 = nenhuma contribuição e 5 = altíssima contribuição) para cada um dos 6 domínios. Esta ideia inovadora apresenta-se então, com objetivo voltado, fortemente, para o domínio de educação.

Desta forma, apresenta-se como uma trilha inteligente, estimular diferentes e paralelos esforços de inovação para que possam permitir a evolução sobre os 6 domínios, de acordo com os objetivos estratégicos da empresa. Colhendo assim resultados de curto e longo prazo com iniciativas de origens internas e externas.

O Impacto da Inovação

Em 2007, as cinco maiores produtoras de celulares do mundo (Nokia, Samsung, Motorola, Sony Ericsson e LG) controlavam, juntas, 90% dos lucros do setor. Foi neste mesmo ano que Steve Jobs subiu ao palco, em uma das apresentações mais memoráveis da história, para lançar o primeiro iPhone e revolucionar o mercado. Em 2015, apenas 8 anos depois, a Apple já era capaz de gerar sozinha 92% dos lucros globais desta indústria.

As empresas mais inovadoras frente o cenário de pandemia

Desde 2020, as empresas do mundo todo estão passando por desafios. Alguns desses negócios falharam, outras simplesmente sobreviveram, se adaptaram e/ou inovaram. A Fast Company, determinou o seu ranking de 2021 das empresas mais inovadoras do mundo, divulgado em marca deste ano, analisando as empresas de 26 setores, destacando as quais incorporam soluções criativas para seus problemas e desafios, conseguindo superar as adversidades da crise imposta pelo Covid-19 e causando impacto pelo mundo, em seus setores ou mesmo na cultura local ao longo do último ano.

Ranking das empresas mais inovadoras de 2021 pela Fast Company

  1. Moderna | Por desenvolver vacinas que possam viajar.
  2. Pfizer-BioNTech | Por se tornar a primeira no setor com uma vacina eficaz contra a Covid-19.
  3. Shopify | Por oferecer salvação para as pequenas lojas.
  4. SpaceX | Por deixar para trás demais competidores na corrida espacial.
  5. SpringHill Company | Por unir entretenimento com justiça social por meio de produções de conteúdo hollywoodianos.
  6. Epic Games | Por desafiar a hegemonia das grandes empresas de tecnologia e possuir uma visão para construir algo melhor.
  7. Netflix | Por tornar o público negro o centro de sua estratégia de programação.
  8. Tock | Por restaurar a vantagem competitiva para restaurantes e pequenos negócios impactados pela crise do coronavírus.
  9. Microsoft | Por criar um sistema de resposta a emergências relacionadas aos desastres naturais.
  10. Graphika | Por rastrear campanhas de desinformação em todo o mundo nas eleições de 2020 e futuras.

Confira o ranking completo em: https://www.fastcompany.com/90603436/the-worlds-most-innovative-companies-2021

As empresas reconhecidas pelo mercado como as mais inovadoras de 2021

A Boston Consulting Group por sua vez, realizou um levantamento com mais de 1500 executivos de inovação para ranquear as 50 empresas mais inovadoras do ano com base em 4 principais constructors investigados em 5 diferentes setores, Bens de Consumo e Serviço, Transporte e Energia, Mídia e Telecomunicações, Tecnologia e Saúde;

Mindshare Global: Baseado diretamente na presença das marcas na cabeça dos executivos que votaram com base em suas observações de mercado.

Revisão por Pares do Setor: Baseado nos votos dos executivos do próprio setor de atuação das empresas. Ou seja, cada executivo votou nesta categoria nas empresas presentes no seu setor em que atua.

Disrupção do setor: Baseado em um index de diversidade mensurado por votos de setores cruzados.

Criação de Valor: Participação total de retorno sobre a valorização da empresa nos últimos 3 anos.

Ranking das empresas mais inovadores de 2021 pelo BCG

Empresas brasileiras mais inovadoras de 2021

Além dos 2 rankings globais citados, trago ainda uma visão recortada especialmente para o Brasil com a 6ª edição do TOP Open Corps, realizado pela 100 Open Startups, principal plataforma de open innovation do país com foco na geração de negócios entre empresas e startups, que avaliou em sua metodologia 3.334 médias e grandes empresas que tiveram relacionamento de inovação aberta com um total de 2.344 startups. O estudo gerou pontuações para diferentes relações de inovação exclusivamente de empresas brasileiras com outros players do ecossistema, mensurados por meio da apresentação de contratos de parcerias estratégias, contratações de serviços, investimentos diretos, lançamento de desafios de inovação diretos ou intermediados, produção e/ou promoções de hackthons, criação de hubs, cursos e mentorias, participação em programas de incentivo, aceleração e conexão de inovação e startups.

Publicado desde 2016, o Ranking destaca anualmente as startups mais atraentes para o mercado corporativo e as empresas líderes em open innovation com startups. O objetivo é dar alta visibilidade para as empresas e agentes do ecossistema que mais se relacionam com startups, ampliando o reconhecimento e as oportunidades de negócio dos premiados. Considerado um dos grandes destaques da imprensa nacional no tema inovação, este Ranking é utilizado como referência por empresas, investidores líderes e mídia.

Ranking TOP 100 Open Corps

A metodologia do Ranking dá pontos para as médias e grandes empresas que mais estabelecem relações de negócio com startups. são consideradas elegíveis as empresas com faturamento superior a R$ 100 milhões ou mais de 100 funcionários, divididas em 24 subcategorias relacionadas ao setor de atuação. E na outra ponta, o estudo elege também o Ranking TOP 100 Open Startus, que são consideradas elegíveis ao serem validadas por um corpo de especialistas e devem ter faturamento inferior a R$ 10 milhões no exercício fiscal do ano anterior à publicação não podendo ter recebido mais de R$ 10 milhões em investimento direto e não ser controlada por grupo econômico, mas sim por empreendedores à frente do negócio. Você pode acessar e conferir a relação completa de Startups presentes no Top 100 Open Startups, clicando aqui.

O ecossistema de inovação brasileiro está em pleno Scale Up.

O aprendizado que estes rankings de inovação oferecem ao mercado

O mercado de inovação aberta no Brasil, simplesmente, explodiu no último ano. O número de corporações que fizeram contratos com startups saltou de 1.968, em 2020, para 3.334 em 2021 [169% em relação ao ano anterior]. Do outro lado, a quantidade de startups que colaboraram com grandes empresas foi de 13.092 para 18.355 na comparação ano a ano. Equivalente a 140% de 2020 para cá. O valor médio dos contratos também teve forte alta, quase dobrando de valor. Partiu de R$ 140 mil no ano passado para atingir R$ 270 mil esse ano. Equivalente a 193% do valor médio de 2020. 

Esses números indicam uma nítida e expressiva mudança de perfil e de comportamento das empresas. Se, no passado, o desenvolvimento de novos produtos e de soluções vinham de programas de P&D e laboratórios criados internamente, hoje boa parte das inovações adotadas estão vindo de fora das organizações.

O ritmo acelerado das mudanças tecnológicas tem sido um dos principais motores desse movimento que evidentemente receberam um empuxo extra com as adversidades impostas pela pandemia de 2020. Nos últimos anos, as empresas entenderam que, se ficassem fechadas em seus ambientes, teriam mais dificuldades para inovar e poderiam perder competitividade diante dos concorrentes.

Especialistas do setor têm apontado que normalmente, o tempo e o dinheiro gastos dentro dos centros de pesquisa das empresas são maiores quando comparados à exploração do ecossistema de inovação e de startups, formado hoje por mais de 15 mil empresas no Brasil.

Pequenas, médias e grandes empresas devem fazer parte do ecossistema de inovação, não porque está na moda ou é cool ter uma área de inovação dentro de casa. Mas sim, para conseguir aproveitar esta tendência em crescimento, em estágios mais avançados lá fora, mas em grande força, expressão e importância no país.”

Talvez, a maior lição que possamos aprender com este cenário de crescente força da colaboração em ecossistemas no Brasil, seja a que os gestores e empreendedores devem estar atentos às aplicações de suas soluções, pois estas podem resolver também, as dores de outras empresas. Assim como estar em contato com hubs de inovação parece ser fundamental para ampliar seu radar de inovação e poder observar o mesmo acontecendo em outras empresas consolidadas ou mesmo em startups. Poder avistar com clareza oportunidades de aproveitar as soluções criadas fora da organização para atender demandas internas e até mesmo, estratégicas do seu negócio.

Tem se tornado frequente e intensa no Brasil a agenda de M&A (Fusões e aquisições em português), como reflexo de boas oportunidades de negócios entrando em um número cada vez maior de radares. E radares, por sua vez, cada vez potencializados pela conectividade oferecida por este rico e incrível ecossistema de trocas, experimentações e muita colaboração.

Um exemplo disso é o apetite de aquisições realizado pela voraz Magazine Luiza. Em 2019 a empresa realizou a aquisição da Netshoes por R$ 62 milhões. E depois disso, apenas em 2020 e 2021, ao menos até a data de publicação deste artigo, já foram 22 empresas incorporadas pela gigante varejista que vem se posicionando como grande referência de inovação e digitalização do mercado brasileiro. Sendo as mais recentes, a compra da varejista online de tecnologia e games, Kabum! por R$ 4,6 Bi e da plataforma de entregas ultrarrápidas SODE por valor ainda não divulgado. Veja a relação abaixo;

2020

1. Estante Virtual
2. Hubsales
3. Betta
4. canaltech
5. Inloco
6. Stoq
7. Aiqfome
8. GLF
9. Sinclog
10. ComSchool
11. Hub Fintech

2021

12. VipCommerce
13. Steal The Look
14. ToNoLucro
15. GrandChef
16. SmartHint
17. Jovem Nerd
18. Bit55
19. Plus Delivery
20. Juni
21. Kabum!
22. Sode

Vamos continuar comprando. São peças que se encaixam de um quebra-cabeça, aquisições estratégicas, para endereçar necessidades específicas”

Disse Roberto Bellissimo Rodriguesdiretor executivo financeiro do Magalu, em entrevista recente à EXAME.

Escrito por Alexandre Conte.